domingo, 27 de Dezembro de 2009

Primavera

Fica comigo. Ofereço-me para ser o teu parágrafo; e o sal que te conserva e enlouquece quando queres ficar sóbria de loucura.
Se partires vais perder a Primavera; e eu, não a perdendo, ignorá-la-ei porque sem ti o desabrochar das flores, o derreter do orvalho matinal, o amadurecimento dos frutos doces não são a primavera com que sonho a cada noite, a cada dia.
Assim lavro a despedida; eu só queria uma Primavera diferente...

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

À luz do tacto e do olfacto acercam-se os corpos repousados mas não cansados, num leito que já esteve mais arrumado. Os perfumes não se saturam: aconchegam e os sentidos estão alerta como se em guerra estivessem, em pleno campo de batalha, olhos nos olhos do inimigo. A guerra, esta guerra, é de gestos. As mãos não lutam, dançam e entrelaçam-se e nós mesmos, com as mesmas mãos, desfazemos todos os nós num emaranhado de abraços. Os pescoços acolhem os suspiros vindos em fôlego, como familiar que só aparece no Natal. A pele beija a pele, a boca beija a boca e o beijo vive na euforia de uma vitória. Os olhares cruzam-se de novo, confirmam-se íntimos vizinhos, parceiros de viagem que iniciam nova volta ao mundo. Despidos de pano, vestidos de desejo, os corpos geram um tufão de presença, de destino e de utopia. Farejando, percorre-se uma pele de galinha que se vai erguendo à frente do nariz e que nunca foi tão bela, tão delicada… Sublime pedaço de amor, fruta doce no paladar de quem possui. Paraíso merecido.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Que longo caminho falta ainda percorrer... Nascem constantemente retrospectivas, depois das questões físicas, morais e existências da praxe. A idade, ou a falta dela, traz estes condicionalismos a uma pessoa. Não adianta eu fugir de mim, nem querer evitar aquilo que vem contra mim. Aprender a imparcialidade e o respeito pelos ritmos, gostos, prismas dos outros não é tão fácil como amiúde se apregoa. Leva tudo muito tempo; parece que eu tenho pressa...

Resumir a um parágrafo toda uma aprendizagem torna-se vago e inconclusivo. O leitor não tem culpa, certamente. Mas se trago mais clareza e precisão a estas palavras, elas perdem a sua mística natural, despem o seu autor e amarguram a poesia.

sábado, 17 de Outubro de 2009


Ócio. Lazer. Ocupo o ócio com o lazer e nos tempos de lazer, ociosos momentos que desejo eternos, vivo o ócio intensamente.
O tempo parece não passar, e enquanto assisto a paralisia tal, escorre-se-me entre os dedos esse mesmo tempo: passo a vida a correr atrás dele e ele, sem andar muito depressa, surpreende-me a cada dia com o seu sempre inovador e previsível compasso.
Tenho saudades tuas. Tuas, sim! Das conversas, dos toques, de escutar o teu fôlego. De cheirar tua pele morena e querer ao mesmo tempo, com todas as forças, prender o tempo numa caixa forte. Ah, mas de ti sinto saudades boas afinal, não aquelas saudades malignas que nos fazem sentir asco do tempo e querer um reviver de cada momento feliz, não. São saudades alegres e cheias de luz que põem na boca onde dançaram os teus lábios o mais ingénuo dos sorrisos.
E agora é isto: a parte do eterno ciclo emocional que se percorre nas penumbras da solidão, em que o ócio e o lazer têm os papeis mais ingratos e importantes. Chega a ser rotineiro e melancolicamente triste; chega a meter dó, mas nunca deixa de valer a pena.
Esta é a minha vida.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Na estação ferroviária de Albufeira...


Alfabetizem os delinquentes!
Nota-se claramente que a intenção deste vândalo (que não tem outro nome) era escrever o seu desabafo sem erros: não deu erros na palavra «estação», nem deu erros na palavra «dos». Na palavra «chibos» trocou o 'ch' pelo 'x', mas como produzem ambas fórmulas produzem o mesmo som, até se perdoa. Agora, ao escrever a palavra «interesseiros» deixa escrito «INTERCEIROS»... Já é um pouco grave.
Deixa-me a pensar: afinal o que é um «interceiro»? Bem, será certamente um terceiro que não o é propriamente, dado o facto de ter o prefixo 'in', que lhe confere antonímia. E alguém que não é terceiro, pode ser quarto, quinto, segundo ou até mesmo primeiro, ou seja, o vândalo ao tentar perjurar espécimenes da família dos caprinos daquela localidade, acaba por elogiá-los sem querer. É por isso que eu digo: alfabetizem os delinquentes!



Este episódio fez-me também, e fujo neste post a questões mais literárias, averiguar o que raio são os 'tags'. 'Tags' são essa espécie de graffiti que não passa dum rabisco feioso que aparece em muitas paredes, cabines telefónicas, caixas da electricidade, portas das casas-de-banho públicas, em autocarros e comboios, desenhados com tubos de graxa... Isto leva-me a pensar: a missão que o 'tag' tem, na sua unicidade gráfica, é dar a conhecer, a quem o avista, que pessoa X esteve naquele local. Ora, além de os 'tags' não significarem nada para o grosso da população, estragarem o nosso património arquitectónico, figurarem nas paredes dos nossos bairros ou casas tirando-lhes a beleza original e serem comummente associados com a criminalidade, não tenho nada contra esses rabiscos.
Afinal que mal é que tem uma pessoa rabiscar com spray ou graxa cada sítio por onde passa? Os cães também o fazem, mijando e bufando em tudo quanto é canto, para marcar território, e não deixam de ser menos queridos por isso.

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Ficção

"- Desculpa lá aquela cena há bocado à entrada do comboio, devia ter-te deixado entrar primeiro."

Ainda hoje acho que devia ter tido coragem para dirigir-me a ela com estas mesmas palavras. Chegara um pouco atrasado à estação e temia que o comboio já tivesse passado, comboio esse que me (nos) levaria até Faro. Ela, singela e simpática ao olhar, esperava enquanto se ocupava com um telefonema para uma amiga (suponho). O comboio não havia passado, deduzi. Mas eu, ainda cheio de pressas sem razão (trago sempre o relógio de pulso uns minutos adiantado), ouvia o comboio estalar nas transições de carris, na ponte sobre o Arade. Por que raio não a deixei eu ir à frente? Poderia não ter feito qualquer diferença, mas o cavalheirismo de que tanto me costumo gabar não existiu por um momento naquele dia. Isto não se faz.
Ocupámos lugares próximos no comboio. Ela sentou-se no banco atrás do meu. Facto que tornaria as coisas ainda mais fáceis: eu poderia subtilmente dirigir-me a ela, sabendo que tínhamos ambos o mesmo destino (ouvi-a a comprar o bilhete), tinha uma hora e meia para o heroísmo.
- Desculpa lá aquela cena há bocado à entrada do comboio, devia ter-te deixado entrar primeiro. - disse-lhe ainda nem sei como no final da viagem.
- Ah, não tem mal. - e continuou a ler.
Nunca mais a vi.

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Musicaram-me!

Esta novidade merece destaque nesta página, bem como na página da música, creio eu. Musicaram dois dos meus poemas, presentes no livro Olhares, que lancei em Junho de 2007. Tal ocasião é integrada num projecto chamado Lagoa a Cantar, da autoria de José Praia e com a colaboração dos grupos de música popular do concelhou e da Pedro Frias Band. O objectivo é dar voz e música aos poemas de poetas do concelho de Lagoa, nos quais eu, com muito orgulho, me incluo. Já ouvi as músicas, ainda que numa filmagem, em indeferido, e deixo aqui o meu muito obrigado (aos músicos e à Câmara Municipal de Lagoa, na pessoa do Dr. Joaquim Cabrita), por se terem lembrado de mim, e os meus parabéns pelo belíssimo trabalho que fizeram.
Aguardo, com muita espectativa, o lançamento do CD.

Leia aqui a notícia.

Os poemas da minha autoria que integram este projecto são os seguintes:


Eu, Outrem


Não sou quem tu pensas que sou.

Eu não sou quem tu conheces:

Sou aquilo que não dou

Por serem versos e preces.


Não sou este humano errante

De personalidade forte,

Nem este cadáver andante

Que vivendo espera a morte,

Nem o dono deste vulto

E nem este rapaz culto

Neste minúsculo porte.


Não sou nada do que digo

Nem sou nada do que faço.

Tenho alma de mendigo

E histórias a cada passo.


Não sou sujeito educado

Nem doidices de homem lento.

Não sou ralé nem sou rei.

Eu sou guitarra de fado,

Sou cantor de sofrimento,

Pois sou o meu pensamento

E o que penso o que serei.


Não sou o que os teus olhos vêem,

Nem homem nem predicado.

Sou as palavras que lêem

Em todo o significado.




Cabtem cantigas choradas


Cantem cantigas choradas,

Chorem sem medo nenhum.

Cantem chorando caladas,

Cantem cantigas d’algum.


Chorem cantando sem fim,

Cantar o pranto faz bem.

Chorando, cantem assim,

Chorem o canto d’alguém.


Chorem cantigas da gente,

Cantar chorando é normal.

Pranto cantado não mente,

Chorar cantando é igual.


Cantem, chorem noite a fio,

Chorem o nosso pecado.

Cantem chorando com brio,

Chorem por nós, cantem fado.

sábado, 5 de Setembro de 2009

Eu, P'tim'nense


Inaugurei, esta tarde, mais um blog. Nada de muito chique. Terá certamente mais visitantes do que este, que actualmente conta com uma média de zero por dia (em números redondos). O espaço visa dar a conhecer a minha relação com o clube do meu coração, o Portimonense Sporting Clube: uma bonita relação de paixão e amizade, cheia de fervor e entusiasmo, com alguma rouquidão devido ao número de golos marcados. Convido a todos os que queiram a ir dar uma espreitadela (clicar aqui). O link já está disponível no menu deste blog, à direita.

É certo que tenho andado apartado dos palcos da blogosfera, mas é que isto em tempo de férias, com a praia ao pé de casa, com o calor algarvio, a vontade de ficar sentado à frente do compudaror diminui grandemente. Peço desculpa aos leitores (se é que os há...). Dentro de poucos dias começam as aulas (merda!) e aí espero voltar a postar com mais frequência.

terça-feira, 14 de Julho de 2009

Escrever

Aprender a escrever sobre as outras coisas, sobre o além-ti.
Pensamentos que teço e me escorrem aos ouvidos, que não são para mais ninguém, mas para o mundo que sinta vontade em sorvê-los.
E eu, que aparentemente só sei escrever de mim, encontro-me nesta treva de não ser nada e de, ao mesmo tempo, ser o mote de tudo o que merece registo. Eu, a pessoa mais normal no universo da anormalidade, encontro e mim mil assuntos discutíveis, e todos eles desprezíveis por parte de quem exista perto.
Oh pá, morra esta dor que é pensar nas utopias, que o que interessa, vai-se a ver, é escrever!

quinta-feira, 18 de Junho de 2009

«É a pena, senhor, é a pena que reinais.»

E hoje já não é a pena coisíssima nenhuma, já não é nada! E as palavras já só são retalhos cosidos com as sobras da linha que os outros deixaram por capricho. Não sou rei da pena, nem da caneta, nem do teclado. Já nem sei se sou senhor de mim. Que desgoverno é este, que à deriva vejo meus pensamentos e naufragadas sinto as palavras que expulso da minha boca? E as restantes, estas que em prantos vou concebendo, já não são nem uma coisa nem outra, mas simples bocados de uma mistura de definição e abstracto.

O que é isto, que já nem são minhas as minhas palavras? O nada que sempre fora meu, perdi-o na tentativa de o encontrar um pouco mais. Diz-me então, quem perde o nada que tem com que nada fica, com que nada se governa?

«Com o nada dos poetas, senhor, esse nada que tudo é…»